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Anchorage
03 Julho 2021
Anchorage, o novo unicórnio a português: Queremos abrir as criptomoedas ao mundo
Dinheiro Vivo

Métricas como o chamado estatuto de unicórnio (quando as empresas chegam à avaliação de mil milhões de dólares) são "de pouco ou nenhum valor" para o português Diogo Mónica, que nasceu na Califórnia (filho de pai capitão de mar e guerra na Marinha Portuguesa) mas cresceu em Lisboa. A empresa que cofundou e da qual é presidente, Anchorage, parece ter já investidores prontos para colocar a sua avaliação acima desse valor mas, aos 34 anos, a sua missão com uma base tecnológica está apenas a começar, no que chama de "revolução mundial que as criptomoedas e a tecnologia da blockchain estão a desencadear e que não vai parar".

O valor da startup disparou desde que foi criada em São Francisco, em 2017. Só em 2019 levantou duas rondas de investimento num total de 57 milhões de dólares e que incluíam investidores como a Visa e a famosa empresa de capital de risco de Silicon Valley, Andreessen Horowitz, com avaliação de 139 milhões de dólares. Já em fevereiro angariou 80 milhões (avaliação desconhecida) já de série C, num total de 137 milhões.

A equipa já conta com mais de 120 pessoas no total (quase metade engenheiros), continuam a contratar e já são mais de 20 em Portugal - o resto está nos EUA. Têm a sede em São Francisco - curiosamente mudou-se durante a pandemia para Seattle, mais a norte, pelos problemas criminais e sociais na cidade - e escritório no Porto.

Estão agora a ponderar abrir outro espaço em Portugal, onde contam ter até ao final do ano mais de 40 pessoas e abrir um escritório em Singapura, até porque um dos principais investidores da última ronda (GIC) é da cidade-estado do sudeste asiático. Os 'novos' milhões levantados vão servir para "escalar rapidamente para dar conta da procura enorme de empresas e instituições financeiras tradicionais para terem bens digitais".

"É incrível a rapidez com que a Anchorage tem valorizado tanto e esta sim é uma verdadeira startup por definição por ter esse crescimento rápido (nem sempre é o que vemos em Portugal). Isto só é possível porque nasceu e se distinguiu num mercado digital em que tudo é acelerado", explica-nos Cristina Fonseca, que lidera o fundo português Indico, que também investiu na última ronda.

E o que é que distingue a luso-americana Anchorage e que a faz ter como clientes grandes bancos? "A tecnologia desenvolvida que resolve um problema complexo recente criada por dois engenheiros de segurança e o facto de nos termos tornado no primeiro e único banco federal de criptomoedas nos EUA (ou seja, somos regulados pela OCC)". Diogo Mónica conta-nos (a entrevista completa estará na terça-feira no podcast do DV Made in Tech) que este tem sido um percurso lado a lado com o seu cofundador, o americano Nathan McCauley.

A aventura americana começou em 2010, quando foi convidado para ir a um evento nos EUA, em São José, para apresentar a sua tese de doutoramento que fazia no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, na área de circuitos distribuídos ("há 15 anos ninguém dava nada por ela, hoje é popular").

Por lá convenceu os presentes ao ponto de receber convites para trabalhar para Google e Facebook. Recusou para não ser apenas mais um entre muitos e foi a partir de sua casa, em Lisboa, que acabou nesse mesmo ano por ser entrevistado por videoconferência por Jack Dorsey - cofundador do Twitter e que estava a criar o seu novo projeto na altura. Acabou por aceitar o desafio de estar na equipa inicial que criou o agora gigante de pagamentos mundial, Square.

"Entrei na mesma semana que o Nathan na Square, no início de 2011, e desde então que tem sido um mentor e parceiro", admite. Depois de quatro anos "incríveis de aprendizagem" ao lado de Dorsey - "viu-o crescer muito como CEO e isso influenciou-me" -, foi com Nathan gerir a segurança online da plataforma para programadores Docker, "que hoje é usada por mais de metade da internet". "Fui para os EUA já com a ideia de criar a minha empresa, mas percebi rapidamente que sem experiência não ia a lado nenhum", revela.

Já sobre a regulação nesta área que começa a ser cada vez maior, garante que "é bem-vinda, porque ajuda a legitimar a tecnologia e as suas vantagens". Sobre El Salvador, que passou a aceitar bitcoins no país como moeda de troca, espera "que mais países façam o mesmo e aproveitam as vantagens das criptomoedas, que podem ser diferentes para cada situação".

Também apoia a entrada dos próprios países na área das moedas digitais, com a sua própria moeda, como a China e a Rússia estão a fazer. "Quantos mais nesta área melhor por legitimam todo o ecossistema digital", indica.

A presença do país que irá chegar a mais de 40 pessoas até final do ano "permite também trazer o conhecimento nesta área de criptomoedas e ajudar a formar o talento português que é bom tecnicamente". Diogo Mónica mantém uma relação próxima com o Instituto Superior Técnico e tem sido business angel e consultor para algumas startups, incluindo a portuguesa JScrambler (já com presença nos EUA), uma empresa de cibersegurança que evita ataques para sites que usam JavaScript. "Tenho-os ajudado a abrir portas de investidores relevantes na Califórnia", admite.

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